Acordo com a gata a correr por cima de mim, e percebo que já não vou conseguir dormir. Em geral, durmo umas cinco, sete horas por noite. não preciso de mais. Ontem, acabei por me deitar cedo. As traições esgotam-nos, acho.
O sítio a que chamo casa, não o é exactamente. É mais um refúgio, uma espécie de bunker onde deixo o mundo todo lá fora. Para cá chegar, é preciso que eu abra voluntariamente a porta de entrada do prédio, depois outra porta de acesso, e finalmente, é preciso ainda rodar uma terceira maçaneta para se conseguir chegar ao pequeno pátio em frente à minha porta de entrada.
Nos meses mais recentes, contam-se pelos dedos de uma mão as pessoas que transpuseram todas essas portas. A empregada, um amigo temporariamente mais solitário. Ponto. Mais ninguém. E nem é suposto, é assim que eu quero.
Obrigar-me a deixar este espaço onde me sinto segura e inatingível não é fácil. Só mesmo quando se acabam os mantimentos e há que voltar a decorar o frigorífico e a despensa. Não que eu coma muito, com o tempo desabituei-me. Mas enfim, há um adolescente a viver aqui também e esse sim, precisa de se alimentar.
…
Hoje, acordei de novo angustiada, revoltada, zangada e magoada. Eram cinco da manhã e soube que já não voltaria a dormir. As traições tiram-me facilmente o sono.
…
Ontem, fui invadida. E não, não gostei nem um pouco. Não tinha convidado ninguém. E no meu refúgio, acho que ainda me assiste o direito de receber ou NÃO receber quem me dá na bolha. E vieram para quê ? Para me dizerem que se encontram repinpadamente alojados a passar férias nessa outra casa que é minha também.
Essa outra casa que é minha também, é o sítio onde eu enterrei anos de sacrificio e as minhas poupanças todas. O sítio onde ainda tenho objectos pessoais, e onde praticamente cada peça de mobilia foi comprada à custa do meu suor. O sítio onde dormi no sofá para que outra pessoa pudesse ficar a brincar ao computador toda a noite, teclando e conversando noite fora. O sítio onde me coibi de jantar para que todos os demais pudessem ter o prato mais recheado. O sítio que sustentei durante anos à custa de jornadas de trabalho de 12, 14 e até 16 horas só para que os restantes pudessem ter uma vida normal… ou pudessem dormir ao longo do dia depois de uma noite particularmente cansativa e estimulante no World of Warcraft.
Dessa outra casa que é minha também, fui literalmente expulsa pelo ódio e pela indiferença. Mergulhada numa sobre-dosagem de anti-depressivos que me deixavam praticamente a dormir o dia todo, a bater dia-sim-dia-sim por aí com o carro que não deveria estar a conduzir e auxiliada apenas por um miúdo de treze anos, foi assim que acabei por sair dessa casa que também é minha. E onde hoje continuam a viver alegremente aqueles a quem outrora chamei de família. Aqueles por quem me esfarrapei a troco de material escolar, férias, festas de aniversário, presentes de Natal.
Essa outra casa, que ainda é minha é o sítio onde se enterra o futuro académico do meu filho, a pessoínha a quem egoisticamente mais prejudiquei com as minhas opções de vida. Para dar aos outros, foi de mim, mas sobretudo dele, que tirei.
E hoje, enfiada no meu canto, assisto aos continuam impavida e alegremente a usufruir da minha dedicação e empenho. Assisto aos sinais de apoio contínuos, à amizade consolidada que rodeia essas pessoas que apenas me usaram e se aproveitaram do que lhes dei, enquanto o pude fazer.
Tento encolher os ombros, trilhar novas rotas, refazer os escombros de vida que me restam. Tento desviar-me dos percursos que fazem. E para quê ? Para me virem apenas bater à porta no final de um dia de paz e esfregar-me na cara a sua felicidade, olhando com ar de gozo a minha decoração minimalista de hoje.
Pois eu dispenso, ok ? Se vivem felizes sobre as ruínas de quem destruíram, pois que vos faça muito bom proveito. Para mim, de qualquer das formas, vocês já não existem, seres abjectos apenas formalmente humanos. O ódio que vos tenho percorre-me de tal forma as veias que me deixa numa fúria incontrolável apenas de pensar que pisam o mesmo planeta que eu. Pudesse eu pagar os honorários pouco simpáticos de advogados competentes e por mim, estariam neste momento já bem atolados debaixo de folhas e folhas de grossos processos judiciais. Pudesse eu…. e teria sem dúvida de volta ao menos o que é meu. Ainda que muito do que dei, muito do que passei, não possa ser pago nunca. Mas essa, é uma dívida que ultraprassa este ciclo de vida humana, e que vos fará certamente carpir ao longo das próximas que vos restam.
Engraçado, hum ? Nunca me tinha percepctionado como alguém vingativo. Provavelmente porque nunca tinha odiado de verdade, antes. Agora vejo que o sou. Que gostaria que sofressem na pele também, nem que fosse um terço ou metade do que me fizeram passar a mim. Que sentissem também as facas do desespero revolverem-lhes as entranhas, que passassem fome e frio e desconforto enquanto os outros à volta se riem divertidissimos.
Não, eu não acredito em “olho por olho, dente por dente”, nem tão pouco em “receber de volta a dobrar o que se fez aos outros”. Mas acredito que a Deusa não dorme… e que mais cedo ou mais tarde pagarão, de uma forma ou de outra, todo o mal que me fizeram. E nem vale a pena estar a identificá-los, porque a Deusa sabe quem são… e o simples recordar das identidades sob as quais se disfarçam me dá vómitos.
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